janelas

espectro (antes que)


Antes que o dia finde
renascerei três vezes
de esporões vermelhos
que o crepúsculo tinge
renascerei três vezes
na cicuta aguada
do cipreste mudo
no crepúsculo velho
três vezes morto
três vezes vivo
na fúria serôdia
de um punhal ardido
três vezes rubro
três vezes negro
três vezes alevantado
no verter das sombras
do cemitério hirto
ao gólgota esvaziado

Fernando Namora “O Senhor dos Anéis” in Nome Para Uma Casa

arrepios, pêlos eriçados e olhos molhados

a minha música,

a minha voz,

NO TEU POEMA

no memory (II)


Coisas, Pequenas Coisas

Fazer das coisas fracas um poema.
Uma árvore está quieta, murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada. E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo e nele há tudo que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.


Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

Aparentemente...


Não basta abrir a janela

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante ser cego
Para ver a árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro, Poemas inconjuntos

Estremoz


gárgula - Santa Maria da Vitória


de Coimbra



Fotografia de Coimbra

Coimbra é a cidade e a esperança dos domingos à tarde.
Um calendário abandonado no bolso do casaco é Coimbra.
Coimbra são as fotografias reveladas de um rolo antigo,
esquecido numa gaveta. E, no entanto, enquanto falamos,
Coimbra existe e corre no recreio. Existe ar que é respirado
apenas por Coimbra. Existe um coração no seu peito a bater,
e esse é um milagre de deus que transcende deus.

José Luís Peixoto "Gaveta de Papéis"