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fotografia de Inverno



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“Termina assim a vida da alta província que, como sociedade rural, se decompunha já. Um estremecimento, que começava desde a denúncia duma mudança de poderes que já não se concentravam na burguesia europeia, percorria todas as camadas sociais e minava as suas estruturas. Corrompidos os sistemas monetários, a política interna dos países tornou-se absorvente a ponto de a visão de uma política humana à escala mundial se tornar cada vez mais impensável. O homem rotineiro desaprova todo o empreendimento vigoroso. As ditaduras nascem das crises perante as controvérsias que eles têm que conhecer. No que se refere à pequena sociedade provinciana, com a sua geo-aristocracia que evoluía para uma geração de homens de negócios e em que o artesão se ia instalando no escritório urbano, Casal Pedro não fazia alguma diferença no que se pode chamar uma cultura do dia-a-dia. A depressão não atingia proporções consideráveis graças à reanimação que a indústria local exercia. Isto tinha como resultado uma confiança que não quebrava a ordem tradicional das vidas, mas que impunha um descontentamento a ser reajustado no futuro. A par de costumes que se esterilizavam no folclore, os novos métodos agrícolas iam encontrando boa aceitação. A família perdia a antiga relevância, filhos e pais gradualmente iam quebrando os antigos compromissos. A sexualidade anterior ao casamento não levantava problemas de maior, e não eram raros os filhos de solteira num casal que se conservava fiel, como Leonardo e a mulher, cuja prolificidade se sobrepôs à moral como valor social.
O Estado totalitário foi uma forma especial de descrença nas aptidões sobre-humanas do indivíduo. O governo que exige muito de si próprio vai sendo gradualmente inclinado a desprezar o indivíduo comum e a ingerir-se no seu domínio público e privado. Em princípio não é um ditador, mas um moralista que se corrompeu ao aceitar o governo. Nos primeiros tempos da sua elevação ao poder as classes burguesas, ainda instaladas num liberalismo hibernante, não querem ver no ditador senão um desses administradores cuja competência tem algo de ridículo e cujas medidas de austeridade são tidas como um terrorismo omnisciente. Mas não se sabe até que ponto um ditador faz a sua evolução e se enraíza a partir da humilhação do homem que teve de se afirmar contra a negligência dos outros homens. A burguesia, para não se reconhecer oprimida, divaga caricaturando. A aristocracia começa por encontrar-lhe virtudes, e depois pressente que insistirá nelas, o que é a maneira fatal de as chegar a contradizer. O homem da rua está em desacordo desde que o achou falto de imaginação. O poder daquele homem que foi talvez um tímido que se compensa com a força das concepções doutrinárias, estabilizou-se. Moralmente, o totalitarismo português teve por ele o conformismo dos homens, avessos à reflexão quando se trata de sobreviver; falsificaram a sua consciência ao disporem-se a serem governados obstinadamente, ou seja, com a espécie de vigilância descarnada que ninguém normalmente deseja assumir.”
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Agustina Bessa Luís, As pessoas felizes, Guimarães editores, 2006, pp. 35-36.

3 comentários:

Diego M. disse...

Tremenda toma...
Imagine un antiguo y solitario pueblo, como en una pelicula...

Saludos y mana!!

Hilmola disse...

great photo

graça martins disse...

FANTÁSTICO!BJS
G